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domingo, 11 de janeiro de 2015

Certezas recordadas




CERTEZAS RECORDADAS        

A cada lembrança vivida
De uma brincadeira que eu pensava esquecida
O sentir do vazio e o persistir da ausência,
A falta, junto a mim, da pureza  e da inocência.
Daquele que ao chegar  fez mais claro o dia
E que ao partir levou de mim,
Um tanto da alegria que havia...     


(É feliz o homem que recebeu  a graça de ver-se refletido na face do filho)

Miguel Cerqueira
09/14

Interlúdio do choro



Interlúdio do choro

Se  uma fórmula há
Que me impeça de chorar    
Se puderes risca num papel
Para que eu possa atirar ao mar

Pois meu choro é o tributo que rendo a ti
E cada lágrima que cai
É pra que vejas o que vem de mim

Mas quando choro, choro aos pouquinhos
Não  porque pouco eu sinta
É para que vá..., bem devagarinho
Tão devagarinho que eu te alcance no caminho.

(O choro de saudade é  a afirmação do amor sentido... – para meu filho, in memorian)
Miguel Cerqueira
09/2014

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014


Quando o homem vira bicho


Era um final de tarde e já havia começado a peleja entre o dia, e a noite que se apressava em tomar seu lugar. No céu, os rasgos do vermelho escarlate simulavam o sangue, resultado de uma batalha da qual já se predizia o vencedor. Foi sob esse cenário que eu passava, despretensioso, pelas imediações de uma feira livre. E, ao acercar-me de uma enorme concha utilizada para a coleta do desperdício de alimentos transformados em lixo, percebi um barulho incomum. A princípio assustei-me. Porém, a curiosidade não me permitiu seguir caminho. Aproximei-me com uma dose de cautela, pois quem estava a  revirar o lixo poderia não ser afeito a intrusos.

 À medida que me aproximava o barulho se tornava mais forte, e acontecia  devido aos movimentos intercalados por curtos intervalos de tempo. Algumas vezes quase imperceptíveis, outras, tão bruscos que me punham de sobressalto. Quanto mais perto eu chegava, mais rápidas eram as batidas do meu coração, meus pelos estavam de pé como os de um gato encurralado. Nesse momento parei um instante e cogitei retroceder.

No entanto, me intrigava o tipo de ruído que provinha daquele entulho. E,  agora, era instigado a descobrir que espécie de animal provocava tal rebuliço. Como era um recipiente relativamente grande, procurei um dos cantos onde os movimentos pareciam menos intensos. Aproximei-me agachado e fui aos poucos elevando o corpo do chão até a borda da lixeira, ainda temeroso. Foi necessário que eu ficasse na ponta dos pés para ver seu interior. Mas, antes que eu pudesse cumprir meu intento de identificar o ser curvado sobre os restos, o vulto voltou-se em minha direção. Senti o sangue esfriar como se congelasse nas veias. Estupefato, impulsionei-me para trás com os olhos cravados no rosto enrugado que mirou-me sobre a borda. “Tá olhando o que moço? Esse lixo já tem dono”. 

A velha senhora falava enquanto mastigava e sumia novamente no monte de dejetos putrefatos. Recobrado do susto, percebi que a fome havia convertido o homem em bicho.



Miguel Cerqueira

Sina

 Mãe e filha descem apressadas, quase correndo, esgueirando-se entre os barracos de uma das tantas favelas brasileiras. 
- Mãe, esse é o beco dos tiros. Mãe, esse é o beco dos tiros mãe.
 A mãe apressada quase arrastava a pequena sem dar-lhe atenção. Mal ouvia sua voz, e não percebia as lágrimas que lentamente começavam a lavar o rosto da inocência.
- Mãe foi aqui, foi bem aqui!
- O quê, que foi aqui menina?!
- Os tiros mãe.
- Que tiros, tá perdendo o juízo? Pelo amor de Deus corre filha. A mãe acabara de falar, dois disparos foram ouvidos.
- Esses tiros mãe, você ouviu? Eu sonhei com eles.
A criança balbuciava enquanto, aos poucos, desfalecia ao som da corrente pútrida do esgoto que corria a céu aberto. Ainda ao seu lado, um homem de arma em punho assistia aos corpos verticalizados pela ação impiedosa da violência urbana.
- Filha de dedo-duro é dedo-duro também - E ouviu-se um terceiro disparo.

 

Miguel Cerqueira

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Carnaval sem festa


Carnaval sem festa

                                           

 

Este ano, não tem carnaval no terraço,
Não tem Peu saltando,
Sorrindo a envolver-me num abraço.

 
Não tem música, tampouco  serpentina tem                                     
Confetes do chão não chegariam perto                        
Colados talvez  nas lágrimas
Que o suor substituiriam  por certo.          

 
Este ano,  não tem  carnaval no terraço,
Não tem um filho  a brincar,
Com o pai a tomar-lhe nos braços.

 
A máscara sim, quiçá viesse outra vez                                              
Mas não  para “pular” carnaval,                                           
Viria  esconder a tristeza,
Abafar  meu choro talvez.                                 

 
No vazio do chão do terraço
Homem, mulher e menina
Faltando-lhes um pedaço
Qual  Pierrot sem Colombina

 
Este ano não tem carnaval, não tem carnaval no terraço,
Não tem o meu filho querido,
Cantando, dançando e me dando um abraço.

Permita Deus que um dia, o carnaval retorne ao terraço

  

(Miguel Cerqueira)

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014





Quando dói a alma
(Memórias da partida do meu amado filho)
 
 
 



Incrédulo, miro  inerte um corpo de criança
Jazindo sobre o frio metal resfriado pelo
Que sobrara da noite.
E no momento em que a luz  começa a
Definir em seu favor  a batalha contra a escuridão,
O desespero pela perda  se assoma
Num grito desumano que denuncia apenas
Uma fração da dor dilacerante que perpassa
A fraqueza humana.
As lágrimas que embaçam a terrível
Visão da morte  misturam-se ao som
Vociferado em imprecações contra
A desventura iminente.
Na mente, o martelar da imagem
Do momento em que, em meu
Ombro,  desfalece um pedaço de mim.
E ao fundo um clamor cortante
Na  voz da mulher  que vê esvair-se
Parte de suas entranhas, o seu amor
Em forma de menino  desvanece
Como haveria ela desvanecido
Se lhe aspirassem  o último fio de oxigênio.
E para secar as lágrimas, para calar o som da dor....    
...a  ORAÇÃO...,
Foi o que ouvi, quase em sussurro, da mãe que
Prostrara-se  no piso frio e infectado , por onde
Há pouco trêmulos pés acorriam desesperados ...
 
Miguel Cerqueira

 

 

 
 
 
 
 

 

Uma mensagem para Pepeu


Uma mensagem para Pepeu

 

Filho, ainda que eu aceite os desígnios de Deus,
Ainda que eu entenda que talvez você não fosse desse mundo,
É penoso aceitar sua partida.

 
Ainda que eu tenha a certeza de que me ensinou
Mais do que aprendeu comigo, não consigo deixar de pensar,
Na ilusão de te agradar, em todas as coisas que ainda faríamos juntos,
E isso me traz a alma em prantos.

 
Ainda que me conforte a lembrança do teu sorriso
Não consigo impedir os momentos de tristeza.
Contudo, não quero permitir que a tua ausência seja maior
Do que tudo que vivenciei contigo.

 
Ainda que as lágrimas teimem em marejar meus olhos,
Para não sofrer, não permito que encharquem meu ser.
Enxugo-as com a lembrança da felicidade que você me deu,
E toco em frente uma vida que neste instante tem menos sol.

 
Ainda que dilacere meu peito a sensação de impotência
Diante da falta de tua presença,
Sigo fingindo que passo bem, na esperança do conforto Divino.

 
Ainda que me amargue a alma a incerteza de ter feito tudo por ti,
Sigo acreditando que sim, porque, de outra forma,  
Me consumiria o remorso e eu não seria digno de ser teu pai.

 
E assim, filho, vou vivendo um sofrimento venturoso,
Pois me assoma a certeza que, ao “morrer”, você se expande.
E nesse momento compartilho sua grandeza.
Cada pessoa que o conhece apodera-se um pouco do espírito iluminado que é você.
E a dor que causa o vazio de sua “ausência”,  
Nos dá a perceber que, uma vez que esteve aqui, jamais nos deixará.

(... saudades meu filho)

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Conflito


Não sei se o que escrevo é o que sinto
Ou o que gostaria de sentir.
A  verdade é que tenho um enorme receio
De que descubram quem deveras sou,
Mas creio que assim deva ser um poeta,
Ora um, ora outro.
No entanto,  sem jamais deixar de ser
Quem realmente é,
Porque só desse modo
Pode ser quem quiser.
Com seus tantos “Eus”
E através dos seus versos,
Às vezes homem, às vezes mulher.
 

Miguel Cerqueira

Colônia


De um lado pólvora e espadas
Manipulados sem honra ou pudor,
E duas raças a sucumbirem abatidas
Sob a impiedosa mão do horror.
 
A dignidade  arrancada
no tronco  ao zunir do açoite,
E como fugaz esperança
a fugidia escuridão da noite.

Rasga do negro o corpo
O chicote feito navalha.
E um grito  desumano a clamar
por um Deus que  então lhe valha.

E resistiu do verdugo ao ferro,
O bravo negro Nagô,
Que para não sucumbir ao martírio
Esquecera o que outrora sonhou.

Enquanto por mata adentro
Corpo nu e olhos rasgados,
Esgueiravam-se outros povos,
Que igual a fera caçados.

De coisa alguma lhes valera
haver na terra estado primeiro,
Pois que viram nas batalhas  dos brancos
Tombar seu último guerreiro.

Assim num solo sagrado
Por lágrimas e sangue lavado,
Se foram Tapuia e xavantes
Sem terem  vitória logrado.

Da mistura de um tanto de raças
Germina um novo guerreiro,
E com o orgulho a servir-lhe de espada
Repulsa o algoz estrangeiro.
 
Miguel Cerqueira

Brigas


Brigas


 
Salta aos dentes a língua perversa
A inibir a ínfima conversa.
Ofensas atiradas por uma boca
que não  consegue calar
Porque a mente não se protege
Do som vociferado
Que o ouvido teima em escutar.
E  a  maldita ira a provocar
Violentos sentimentos.
E passado o infeliz momento,
Resta a angústia por não ter  sido racional,
O gosto amargo das palavras mal faladas
E o remorso ao perceber,
Que fossem flechas as palavras ditas,
Faltaria agora um pedaço em  você.

 
Miguel Cerqueira